#0 - transformar falta em vazio
sobre a abertura da exposição "meu nome é um caminho"
abrir.
dia 16.09 n'A Pilastra, Guará - DF. foi um acontecimento.
da vontade de transformar poemas em vídeos, em corpos de tecido, em um espaço habitável. da vontade de fazer junto, de caminhar junto, de aprender junto. "meu nome é um caminho", nossa primeira exposição, chegou nesse nosso canto de mundo. eu, francisco rio e uma galera que topou sonhar com a gente.
eu disse há meses para o francisco que ia começar uma newsletter para nossa pesquisa ACOLHER DESTRUIR O TEMPO. queria enviar pras pessoas da equipe que estão construindo com a gente os trabalhos que entraram agora na exposição. e na verdade eu disse pra mim mesma há 3 anos que ia começar uma newsletter - maaas pérainda, donde que veio essa palavra? niusléter? naaaam, vamo de novo:
eu disse há 3 anos que ia começar uma coluna (melhor né?), tipo de jornal, mas fora do jornal, pois ainda não sou famosa assim pra me chamarem prum jornal (e até nem acho que paguem bem em jornal hoje em dia, mas tem o prestígio). coluna é uma palavra legal por outros motivos. me lembra de me movimentar enquanto escrevo pois já são 5 anos de dores crônicas nas costas. e em algum momento nas práticas marciais eu aprendi que a coluna é uma serpente, o que tem tudo a ver com as linhas dentro das células que poderiam ir até as galáxias se desenrolassem... mas agora estou me adiantando, essa parte era lá na frente. então rebobina (pegou essa é 30+)
agora foi, a coluna. ela começa assim:
transformar falta em vazio
- roubei essa frase de mel bevacqua. eu roubo muitas frases. mas só roubo de amigues. (vocês nunca vão saber o que é verdade e o que é mentira). a volta do fio é que as minhas palavras tão aí pra roubo também.
no bloco de notas pra esse texto era:
o vídeo do pé - só permanece o que transiciona - francisco foi quem escreveu
(eu tinha escrito de outra forma - "o que não permanece transiciona" achei melhor o jeito dele de roubar frases). eu gosto muito de frases. gosto principalmente de escrevê-las e de roubá-las do meio de outros corpos que elas habitam e fazer elas em seu próprio corpo. ou juntá-las em corpo novo. ou costurá-las para ficarem um tempo grudadinhas em mim. ficar olhando ali pra frase. sentir seu toque, sua textura. essas algumas frases que estão por trás, por baixo ou por ontem dessa pesquisa
existe um deus chamado mudança. a natureza é transformação. outros nomes do tempo. (onde escolho colocar pontos finais)
a terra se transforma a cada momento e nós somos moléculas da vida do planeta. pequenas em fluxo, compondo organismos dentro de organismos dentro de uma imensidão azul que é só mais outra pequena molécula no infinito vazio escuro
mas existem as estrelas. luzes de outras eras, outros tempos

olhar para a transição é olhar para nossa capacidade de acompanhar transformações. nadar nesse rio com a força de um peixe brilhante (Ailton Krenak). entender a nossa parte no corpo do rio, no volume do rio. escolher se no leito desse rio seremos peixes ou hidrelétrica, plantas ou erosão. escolher se no corpo do planeta somos sangue vivo ou doença autoimune
o planeta se transforma. seres humanos, maiores predadores do planeta, impactam essa transformação em direções perigosas para muitas vidas. no corpo humano pequenas linhas se entrelaçam invisíveis aos nossos olhos, mas com tamanho para cruzar pela galáxia anos-luz (uma medida de espaço onde é tão grande o espaço que vira tempo)
no entanto um corpo humano não sobrevive no vazio inter estelar
para sobreviver um corpo humano precisa de vazio existencial
proteja seu vazio existencial - escreveu francisco
não foi bem isso o que ele escreveu, foi assim:
"no fim do mundo, o desafio foi (é) livrar meu vazio do deserto especulativo do capital, 'comida de capitão', isso de ser insaciável. do desejo sucumbir à falta, de tanto desejar desejar desejar. saudade ensina. deixar estar. meu vazio existencial, esse que dá a mão para o infinito. uma roda que é na verdade tudo que se encontra ao redor dela."
parece que vivemos um tipo de fim de mundo. o que me leva a repetir algo que como um mantra:
o planeta transicionará, conosco ou sem nós. somos capazes de transicionar com o planeta?
descobri que no meio do giro se encontra o infinito, então dando mais essa volta algo me aponta: é preciso transformar falta em vazio
a falta que nos faz querer consumir até esgotar tudo
a falta que nos faz querer gastar energia elétrica - que é corpo de rio transformado em luz - para ficarmos cancelando umes a outres online por horas a fio
a falta que nos diz que é sempre depois e que é preciso sempre mais e que não nos deixa
deitar uma hora
em silêncio
no escuro
(porque é cidade)
para transformar falta em vazio um bom ponto de partida pode ser lembrar que tudo que precisamos já está aqui conosco, aqui em nós. em cada célula de cada corpo existem gigantescos fios enrolados, duas serpentes que se entrelaçam e guardam as histórias de tudo que já fomos, todos os nomes possíveis. fomos-somos-seremos toda a vida.
está escrito ali, nessas fitas boiando num pequeno mar, microscópico. o dna se enrola, pois suas bases nitrogenadas são hidrofóbicas: em contato com a água (em composição salina próxima a do mar), seu ambiente dentro da célula, essas bases se enroscam.
em cada célula se reencena a origem da vida.
dna (espiral) mar (travessia) as estrelas a escuridão a geografia o microscópico o corpo e a memória
é no tempo da brincadeira que se vivencia
(eternidade)
as crianças sabem
elas são poderosas
mas gostam mesmo é de brincar¹
meu nome é um caminho
por diana salu e francisco rio
curadoria de lua nã kixelô cavalcante
a exposição está aberta até dia 26 de outubro
de quarta a sábado, das 15h às 20h na Galeria A Pilastra - Guará II
fotografiaspor : @juliasalustiano
os agradecimentos vão a tudo que nos mantém em movimento, aos invisíveis que nos ajuntaram e a todes que nos fortalecem no passo junto, mesmo no jogo do longe-perto. e em especial para A Pilastra, Casa Moringa, Maria das Alembranças, Mestra Ni de Souza, Mestre Zé do Pife e nossa equipe maravilhosa:
Diana Salu
artista, roteirista, diretora de arte
Francisco Rio
artista, diretor audiovisual, coreógrafo
Lua Cavalcante
curadora, coordenadora do educativo
Mestra Ni de Sousa
artista convidada, oficineira
Juno Nedel
assistente de pesquisa
Ernesto Nunes, Qualq
apoio de pesquisa
Pétala Cocentino de Oliveira
compositora de trilha sonora
A Pilastra
produção executiva e expografia
Gisele Lima
coordenadora de produção
Geovanna Belizze
mídias sociais e assistente de produção
Tahak Meneguzzo
designer e assistente de produção
Isaac Araújo Guimarães
webmaster/webdesigner
Bethania Maia e Ana Rabêlo
produção audiovisual
Ana Rabelo, Zulmí Nascimento, Thamires Barreto, Pétala Concentino
filmagem/operação de câmera
Márcia Regina
montagem e edição audiovisual
Júlia Salustiano
fotógrafa
Ave Syrus
figurinista
Francisco Rio, Diana Salu, Ernesto Nunes e águabordada: Ave Syrus, Caiuá Quarela e Peu Sousa
grupo de confecção
Romulo Barros
cenógrafa
Ana Quintas
iluminadore
Romulo Barros e Tiocafona
montagem
Pietra Ramos de Sousa
preparadora vocal, direção de elenco-voz
Ava Scher
preparação corporal, escritora e voz convidada
Zulmí Nascimento
preparação corporal, direção de elenco
Ga Olho
artista convidade
Lui Castanho
voz convidada
SapucaiaLab
estúdio para captação de vozes
Alessandra Rosa
coordenação administrativa
Keyane Dias e David Mello
assessoria de imprensa
Iury Ferreira Ferraz
intérprete de libras
Daniela Louvores
consultora de acessibilidade
Taike Xavier
audiodescrição








