#4 pra quem sabe de onde veio qualquer caminho chega
o chão do cerrado, ambivalências de uma cidade sem memória, achar casa onde nunca estive, o rio bom
A cor do chão. Cerrado ou sertão.
Aqui em Brasília a terra é vermelha. É o chão do cerrado.
É sempre curioso para mim chegar em outros biomas e ver como são diferentes as cores do chão. E ainda mais chocante chegar numa cidade grande de verdade (Brasília apenas disfarça) e perceber que a poeira que cobre o apartamento não é a mesma, de chão vermelho de terra, mas uma fuligem cinza e grudenta. Eu precisei me mudar para uma das maiores cidades do país para entender, com 33 anos, que eu sou do interior. Um dia ao falar justamente isto em um story, minha irmã mais velha, Júlia, reagiu dizendo "uai, nossa infância na roça é raiz forte". Eu apenas sorri quando li, lembrando como ela tem a fala mais mineira das três irmãs. Minha memória de infância é mais uma série de sensações, do que de fato lembranças dos acontecimentos. Algo na passagem pra adolescência produziu uma ruptura interna em mim que jogou um tanto do que vivi para um tipo de limbo. Os porquês desse processo de memória e esquecimento já investiguei de muitas formas e são assuntos para outra carta. Mas é curioso notar como a questão da memória parece incontornável para mim.
Minha família é de Paracatu. localizada no sertão mineiro, noroeste de minas gerais e nomeada em referência ao rio Paracatu. Diz no site do iphan "O nome Paracatu é originário do Tupi-Guarani e significa 'rio bom'. O rio Paracatu é o mais importante do município e também o mais caudaloso afluente do rio São Francisco - que nasce em Minas Gerais e segue em direção ao Nordeste onde está sua foz, entre os estados de Sergipe e Alagoas. O antigo povoado surgiu entre 1690 e 1710, no ponto de convergência dos diversos caminhos que ligavam o litoral - Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro - às “minas gerais” e aos sertões do Brasil."
A cidade cresceu no final do ciclo do ouro, sendo suas minas as últimas jazidas descobertas em Minas Gerais - o que lhe conferiu importância no cenário nacional durante muitas décadas e lhe rendeu o título de "Princesinha do sertão". Com o fim desse momento, a cidade viveu um declínio econômico até o período da construção de Brasília (a uma distância de poucas horas de carro) e a posterior chegada de novas tecnologias de mineração que permitiram a exploração de jazidas mais profundas - além de um momento de expansão da atividade agropecuária, também associado a novas tecnologias e ao aumento da exploração do centro do país nas últimas décadas.
Essa atividade econômica recente é controversa, para dizer o mínimo, com o minério sendo explorado por uma empresa multinacional canadense (Kinross Gold Corporation) e causando grande impacto ambiental. Paracatu hoje possui índices de câncer muito acima da média nacional, com relatórios e reportagens feitas sobre o caso¹. O site da mineradora passou por um rebranding, colocando-se como "verde" e propagandeando uma recuperação do rio supostamente promovida pela empresa.
Durante a infância, fomos algumas tantas vezes para lá, principalmente para visitar meu avô materno (o único dos avôs e avós que cheguei a conhecer), mas também para as chácaras e sítios de tios e tias.

Crescer no espaço entre - ambivalências de uma cidade sem memória
Fazendo uma ressalva à minha irmã Júlia, acredito que a surpresa de minha descoberta recente não é sem motivo. Não somos, de fato, da roça. A roça para nós era férias, descanso, viagem, passeio. Não é e não era nosso mundo cotidiano, o território onde crescemos e tampouco de onde nossos pais tiravam seu sustento. Somos brasilienses, filhas de migrantes paracatuenses que puderam estudar na Universidade de Brasília entre os anos 80 e 90, conseguiram bons concursos públicos e se estabeleceram na cidade. Netas e bisnetas de uma família que possuía sua parte das terras da região. Terras que durante muito tempo "não valiam quase nada", sendo usadas principalmente para criação de gado solto - mas ainda terras em um país onde uma das suas maiores feridas é nunca ter havido uma reforma agrária.
Crescemos em Brasília, estudamos em colégios particulares e consumimos muito do modo de vida e do imaginário da nova capital e de outras grandes capitais do sudeste, em especial São paulo e Rio de janeiro. Há também a dose particular de influência do modo de vida estadunidense, como em todo Brasil, mas com suas particularidades. A cultura do automóvel particular, tão forte em Brasília; os shoppings centers e uma ideia de organização social baseada na segregação espacial. Tivemos sempre um contato com a cultura do interior, com o campo. Também com a música, a literatura, o artesanato e a arte brasileira. Um apreço especial pelas manifestações culturais populares e tradicionais que nos foi imbuído em nossa criação, mas que ainda era vivida a partir de certo distanciamento.
Essa ambivalência, assim como tantas outras, é parte crucial da formação da minha individualidade e da minha personalidade, reaparecendo em muitas das questões que vivo. Crescer em Brasília, no Plano Piloto (o "avião") é crescer entre algo de urbano e algo de rural. Em um projeto de exploração e apagamento da memória do cerrado local e de quem já vivia aqui que, ao mesmo tempo, proporciona sensação de amplidão do horizonte, um contato diário com muito verde e com o vazio - elementos compartilhados com a vida rural. Crescer aqui é crescer entre um olhar direcionado (e ensinado a ser) para os grandes centros urbanos do sudeste e a geografia do cerrado. A cultura do goiás ao redor, dos interiores mineiros e dos vários nortes e nordestes que vieram com tantas pessoas que migraram dessas regiões para cá (e que seguem migrando).
Crescer em uma cidade que segrega espacialmente como poucas outras, ao mesmo tempo que proporciona uma experiência urbana repleta de vegetação, ainda que boa parte não seja cerrado nativo. Crescer e viver nessa ambivalência: o desmatamento promovido pela cultura do agronegócio em todos os arredores convive com a proximidade com as chapadas, cachoeiras e quilombos. Entre a soja, um grande aparato estatal de vigilância, um olhar direcionado para o sudeste, uma escuta e uma fala repleta de sonoridades de outras regiões e um corpo que conhece o sol seco, o vento e a fundura das águas do interior.
Em um país colonizado e que segue sobre colonialidades várias - um país rico, mas desigual, eternamente colônia na geopolítica global -, toda cidade grande nasce de violências. Nascem de expulsão, de exploração, do regime escravocrata e suas derivações, do extrativismo predatório. No caso de Brasília essa história está logo ali, nos lambendo os calcâneos. Não à toa a postura oficial desde a fundação e a subsequente ditadura militar é de apagamento dessa memória e dessa história. Uma cidade que parece que está sempre começando de novo, onde as iniciativas são continuamente celebradas por serem "a primeira __________ de brasília" mesmo que hajam anos de história, que muita coisa anterior já tenha sido feita. Uma cidade onde quem trabalha na cultura ou se muda para fora ou insiste sendo assombrade pela sensação de estar sempre começando de novo. E ver repetindo em cada nova geração alguns dos mesmos perrengues e dilemas que de novo e de novo nos levam para as duas (aparentes) únicas opções: passar num concurso público ou ir embora daqui.
Numa cidade cronicamente sem memória, o tempo pode até parecer não existir, mas de um jeito ou de outro ele te alcança.
Entre as margens, o rio São Francisco guardou meu sono
Ano passado estive pela primeira vez em Januária, cidade mineira da região do médio São Francisco e localizada na margem esquerda do rio. Fui à convite de Francisco Rio, que iria exibir seu filme Estrela da Tarde (com o qual colaborei com o texto e uma intervenção poética-visual) no Festival A outra Margem, realizado pelo Cine Barranco. Foram poucos dias, em Julho, enquanto eu estava em Brasília para realizarmos as filmagens dos videopoemas que estávamos desenvolvendo para a exposição Meu nome é um caminho. Ali na viagem, aliás, ainda estávamos elaborando o que iríamos de fato filmar, e compartilhamos o encontro com esse velho rio.
Ouvimos contarem como anos atrás o rio chegava há uma distância de muitos metros acima, encostando, na cheia, com as muretas da cidade. Me lembrei que algumas semanas antes havia assistido ao filme “Ouvir o Rio”, que acompanha o processo de criação da instalação sonora “rio oir” de Cildo Meireles e me marcou uma fala de Josevaldo Gomes, ribeirinho. Ele contava que antes de estrangularem o rio, ele vinha com uma força tão grande que empurrava a água toda do mar, num encontro de espantar. Sua vazão era forte e cheia, e arrancava o que poderia causar assoreamento em suas margens. (contei como ficou na minha memória, mas encontrei o trecho aqui)
"seu leito chama silêncio brinquedo de ter muitos nomes ou nome nenhum, seu abraço de (re)virar terra"
Escrevi esse trecho voltando, no sacolejo do ônibus pela estrada de terra atravessando o sertão, e finalizei o poema rio novo francisco rio, que havia começado dois anos antes, quando conheci e me aproximei de Francisco.
O que chamamos silêncio não é outra coisa que o som dos rios, do vento, do tempo a desdobrar-se.
Aqueles poucos dias em Januária me marcaram com uma sensação estranha e tranquila de casa. Estava numa cidade que nunca havia estado. Caminhava pela rua, desejava bom dia boa tarde boa noite para as pessoas. Silenciosa, mais observava do que qualquer coisa. Vivia o prazer de estar ali sem obrigações e seguia os caminhos que outres faziam, os que me chamavam. Durante os dois meses anteriores pouco havia dormido, entre crises de ansiedade do início do burnout (falei sobre na edição passada), desespero assistindo as enchentes no rio grande do sul e a adaptação com remédios psiquiátricos leves, mas que eram minha primeira experiência do tipo. Naqueles dias, no alojamento coletivo, no leito do rio, no ônibus de volta, habitei um estado entre a vigília e o sono, como se fosse sempre sonho, como se o meu corpo ali reconhecesse seu tempo.
Esse lugar não era novo ou inédito para mim, mas eu andava com dificuldade de acessá-lo. O estado entre o sono e a vigília é presença recorrente em meus processos criativos, revelando-me sensações, imagens e palavras que se desenvolveram em boa parte dos trabalhos que fiz desde que comecei minha trajetória artística. Sendo alguém que consegue visualizar bem pouco mentalmente - característica que descobri recentemente ter um nome, “aphantasia”, e ser uma espécie de espectro com diferentes gradações -, o mergulho no sono e nos estados que o antecedem ou sucedem são momentos onde consigo, de forma nebulosa; onírica, coletar algumas imagens ou propostas para imagens.
Pra quem sabe de onde vem qualquer caminho chega

No dia da abertura da exposição, Mestra Ni de Sousa apresentou um pouco do seu trabalho, sua história e sua trajetória. Contou como ela existe pelo reconhecimento dos fazeres de quem veio antes dela, daqueles que foram seus mestres, e do que é a sua tradição. Ela é fundadora do grupo Mateu de Teatro, de Barbalha, na região do Cariri - CE, brincantes de rua que se caracterizam de Mateu do Reisado de Congo. Durante a apresentação ela disse muita coisa, dentre elas criou uma raiz em mim as várias vezes que repetiu "quem sabe de onde vem nunca se perde. quem sabe de onde vem se perde porque é legal se perder, porque quer. pra quem sabe de onde veio, qualquer caminho chega"
Eu aqui, de volta à Brasília, nascida nesse entre, nesse meio de caminho, nessa cidade do futuro que já veio e não foi, onde a terra é mais antiga do que qualquer traçado modernista, tenho me perguntado muita coisa enquanto procuro resistir no tempo do sonho, do devaneio, o fora do tempo do trabalho. Tenho olhado os caminhos do São Francisco e onde ele se desdobra, onde ele se transforma, onde seus afluentes chegam em um lugar embaçado na memória das viagens de criança. Um lugar cujo nome vem do nome de um rio. Um nome vivo em tupi-guarani, Paracatu, cuja transição para brasileiro diz: Rio Bom.
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Epílogo e uma troca de haicais
Essa coluna de hoje ficou com um ar de olhar para o passado, para memória, para caminhos que nos trouxeram aqui mesmo que não tenhamos sido nós a percorrê-los. Esse jogo de tempo, em seus giros e brincadeiras de posicionar é um pouco do que se chama ancestralidade.
Como travesti, sapatão, promíscua e artista, está longe de mim romantizar a vida no interior do Brasil. Como aprendiz do taoísmo, também não acredito em fantasias de retorno às origens. Justamente por isso tudo, reconheço a importância da memória. Não como um retorno a um local onde já se esteve, mas como um recuperar do que ficou e um entendimento de como isto que já foi se transformou no que hoje é. Acredito no caminho de retorno que é se despir do tanto de acúmulo que vai se fixando na nossa pele com o passar dos anos e encontrar o vazio e o silêncio anterior a isso tudo. Às vezes, recuperar os passos anteriores aos nossos ajuda nessa desnudamento.
No apartamento na Asa Norte em que moro há 8 anos (com excessão de 2024, no Rio de Janeiro), todas as janelas são rodeadas por uma grade com o desenho do adinkra Sankofa, tão presente em casas e ruas pelo país. A grade é uma só, seguindo pelo parapeito de todas as janelas. Quando olho para fora me lembro que voltar é buscar algo do que ficou. E se por acaso minhas vistas já se acostumaram tanto com as grandes, à ponto de não vê-las, à noite as luzes da cidade projetam o símbolo para dentro de casa e vejo-o nas paredes, entre vãos de portas, nas minhas pernas quando deito e me alongo jogando elas para o alto
Ontem a noite me veio o verso:
a noite guarda a memória do mundo
Faz algumas semanas tenho trocado haicais (sendo mais precisa, haikus) com meu pai, que me presenteou no natal com o livro de obras completas de Matsuo Bashô e me levou a embarcar numa jornada pela escrita desses surpreendentes flashes poéticos. Desde então, acho que tenho devolvido o presente, na forma de escritos, e ele embarcou comigo. Mandei para ele esse verso e recebi de volta dois poemas:
A noite guarda No fundo, a memória Do mundo.
E o mundo guarda Nos sonhos, a memória Das noites.
Tristão Botelho
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para o próximo capítulo:
botar os poemas para desfilar ou um poema impossível ou ninguém brinca de roda sozinhe ou ter muitos nomes
ainda não sei, vamos descobrir
inté e que sejam bons os ventos de outono e a abertura de abril,
🍃 Diana
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Esta carta levou cerca de três tardes para ser escrita e montada, mais um tantão de coisas vividas e sentidas. Por enquanto, não estou recebendo colaborações financeiras, mas você pode ajudar compartilhando, enviando para alguém que possa gostar, comentando e continuando a conversa por aí.
Agradeço demais!
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¹ Matérias sobre o caso de intoxicação em massa em Paracatu:
Paracatu: o maior envenenamento em massa no Brasil
Exames de parte da população de Paracatu confirmam envenenamento por arsênico








Uma lindeza esse giro no tempo... Mergulhei aqui junto no rio bom da nossa infância.
Paracatu é um tanto de raiz e um tanto de mistério pra mim. Eu, desmemoriada que sou (e também a caçula), tenho quase nada de memória dessas visitas, mas quase tudo de intuição que é de lá que veio toda essa minha estranheza.
Não imaginava que os sankofas estavam aí na grade das janelas lembrando o voo de olho no passado.
Que venham as próximas colunas e haikais.
Eu tbm lembro mta coisa não assim de acontecimentos. Mas a memória é tbm esse exercício de contar.