#5 quando o poema se impõe
ter muitos nomes, ter nome nenhum, um poema impossível, um céu de nomes
Ter muitos nomes
Um dos poemas-base para a criação da exposição Meu nome é um caminho foi o poema ter muitos nomes. Esse poema surgiu durante o exercício que me propus na virada de 2022 para 2023 de escrever um poema por dia até o final do mês de Janeiro, mês da visibilidade trans. Essa série de poemas publicada com o título “31 poemas para transicionar” foi um momento de experimentar não só a escrita diária, mas o meu interesse de trabalhar a poesia em diferentes mídias / desdobramentos.
Fiz exercícios de corpo e dança (poema gesto); pequenos vídeos (videopoema); pintura corporal (corpo poema); uma roupa de papel (poema para vestir?); fotografias (fotopoema existe?) e também coletas e recombinações de palavras em conversas coletivas (poema composteira-convivência?). Fiz a minha própria residência artística em casa e era tudo feito e postado no mesmo dia, sem grandes revisões ou edições, algo como um caderno de pesquisa aberto. Arte enquanto processo, enquanto hábito cotidiano. Dá pra ver aqui.
Uma pequena digressão: parte desses poemas acabaram integrando o corpo do livro Profecia (Jandaíra, 2023), sinto que eram o arremate que faltava. Para a edição, foram publicados apenas os resultados finais em texto, os poemas escritos. Hoje me pergunto se foi a melhor escolha deixar o processo experimental e trans/midiático de fora do livro, escolhendo um formato mais convencional de poemas impressos em letras pretas sobre folha branca (algo novo na minha carreira de zineira e publicadora independente). Sei os motivos que me levaram a isso, as expectativas de estar em uma editora de destaque, vontades de recepção em um meio literário fora do que eu costumava circular (o circuito de poesia/literatura contemporânea, diferente do zines/quadrinhos), e me orgulho do livro. Mas por aqui já germina vontades de uma futura e mais experimental edição (beeem futura) que possa trazer uma contaminação maior das experiências de corpo e multimídias.
Voltando ao poema, ter muitos nomes foi escrito após uma conversa com Juno Nedel sobre a memória trans; os arquivos disponíveis em jornais, documentos médicos ou estatais; a repetida narrativa das nossas histórias apagadas; as pessoas que foram enterradas sob nomes que não eram seus; fotos sem nomes, nomes sem fotos;
e por trás de tudo: a ideia de que pessoas trans seriam algo novo
Em toda essa série de poemas e experimentações, procurava dar corpo ao que vinha formulando enquanto uma poética da transição. A ideia de que isso que nós pessoas trans vivemos em nossos corpos, intimidade, espiritualidade e sociabilidade (porque afinal todos esses campos são embolados uns nos outros) não é tão novo assim. De que, na verdade, é antigo, muito antigo. Tão antigo quanto a noite, que dilui, embaça e transfigura as formas diurnas.
Nós nos transformamos. Somos isso, essa corrente (da correnteza, mas também do que é feito de muitos elos entrelaçados). Nós, tudo o que é vivo.
E a escrita é também um território de se ter muitos nomes, esse gesto tão antigo / ato de feitiçaria. Diferente do que um certo tipo de escrita possa querer fazer crer: que a palavra seria uma ferramenta de contenção e delimitação - uma extensão do gesto colonial de apontar o dedo e dizer “isto é isto, aquilo é aquilo”. A escrita é uma brincadeira, um feitiço, um jogo de armar - tem dentro ar, mar, arma e amar.
E mais interessante do que o que tem dentro é o tanto de coisa que tem em volta.
Ter nome nenhum
Como o próprio título já anunciava, esse foi um poema que rapidamente criou vida própria e deixou de ser meu. Ter muitos nomes é também ter muitas autorias. E isso acontece com tudo que a gente escreve, afinal as palavras não são minhas/ me lembram: nada é meu (de outro poema do livro Profecia), mas em alguns casos fica mais evidente.
Francisco Rio, parceiro de pesquisa e criação para a exposição, tomou o poema para si e o colocou na abertura de seu filme Estrela da Tarde, em uma cena em que vemos suas mãos folheando um álbum de família à medida que declama as palavras. Ao final da cena, ele sobrepõe o álbum a uma gravação de tela de um mapa do território, em que ele vai ampliando até chegar a Brasília, então ao Gama e então à rua da casa de sua avó. Francisco trouxe para mim essa outra dimensão do poema: a dos nomes dos lugares nos mapas, dos rios, das cidades, das ruas, dos territórios - os vários nomes que cada lugar já teve e já tem, os que são ocultos e desconhecidos para nós, os que não são nomes em palavras. Como o vento chama um morro quando por ele corre?
Pra algumas pessoas, a sonoridade do poema talvez seja essa da voz de Francisco na gravação do filme (uma voz que também é memória, sua voz se transformou desde então). Para outras pessoas, pode ter sido a sonoridade da voz de floresta quando leu o poema no milcontra em SP. Para outras pode ser a sonoridade de duas vozes misturadas, a minha e de Juno Nedel, durante seu curso o corpo como arquivo, na Brava; ou a minha e a de Tom Grito, durante o evento Paraíso Trans, que aconteceu na Travessa de Botafogo, com organização de Antônio Tempo há exatamente um ano (logo antes do show da Madonna)
O poema se impõe.
Já foram muitas ocasiões em que não planejava lê-lo ou mencioná-lo e na hora ele se colocava ou era convocado. Durante participação na programação da Sauna Lésbica, em novembro de 2023, entrelaçando poemas meus e de Rivka, havia escolhido deixá-lo de fora. Até que Janaú trouxe um poema incrível sobre nomear-se a partir do local de retomada de uma pessoa indígena. Joguei todos os papéis pra trás e fui atrás do poema no livro.
Até mesmo quando começamos a pesquisa, Francisco e eu, durante a residência no Museu do Amanhã em 2023, imaginávamos que trabalharíamos com esse poema apenas depois, e ele não permitiu, se colocou à frente.

Um poema impossível
O poema termina assim:
imagine um poema impossível, gigante infinito: cada verso um nome, a cada nome sua história quando se tornar algo impossível de seguir mapeando terá perdido a necessidade de existir e aí viveremos a liberdade de não ser problema ter (ou não) nomes
Desde as primeiras conversas com Francisco sobre a exposição eu vinha com uma pulga atrás de todas as orelhas “e se a gente tentasse fazer o poema impossível? uma obra com o nome de todas as pessoas trans que já existiram?”. A ideia parecia tão absurda e ao mesmo tempo ridícula que eu fiquei muito tempo sem me permitir a ela. Como assim com os nomes de todas pessoas trans que já existiram?
Pra começar, como poderíamos saber todos? Mal dá pra saber todos os de agora, que ideia sem nexo. A imagem funciona no poema porque, bem, poemas criam imagens dentro da nossa cabeça-corpo-imaginação, não em materialidade. O poema falado já entraria nos trabalhos em vídeo, entrelaçado a outras escritas, a gargalhadas e balbuciações, a brincadeiras entre nossas vozes e a de Ava Scherdien, com preparação dela e de Pietra Sousa, e trilha de Pétala Conceitinho.
Daí que Francisco falou para termos acima do nosso espelho d’água-poça-saudade um teto branquinho em algodão cru cortado em fitas como os tetos dos terreiros da brincadeira.
O poema se impôs.
E lá fui eu comprar algodão, planejar como seria feito e começar a juntar nomes e pintá-los, um a um, à mão, nas tirinhas do nosso teto. Recebi ajuda depois, chegando em Brasília, de Francisco, Sabiá e Caiuá. Viajei para Maringá para participar da festa literária da cidade com tecidos na mala, comprei tintas numa papelaria próxima ao hotel e quanto não estava no evento, estava no quarto escrevendo nomes.
Falamos com Juno e criamos um formulário para pessoas trans vivas preencherem com seus nomes (ainda tá aberto, e você pode participar, aqui). Tenho em um arquivo uns cerca de 500 nomes. Mal começamos a pintá-los. Dois dias antes da abertura eu não estava satisfeita com quão poucos nomes havíamos conseguido pintar e falei para Francisco e Lua Cavalcante, nossa curadora, que a obra não deveria entrar nessa montagem. Foi uma briga. Eram os dois contra mim e a contragosto aceitei. Eles estavam certos, não poderíamos abrir sem ele, ainda que como obra em processo.
O poema se impõe. Impossível, infinito - como obra em galeria apenas rebento e, por isso mesmo, repleto de possibilidades.
Era o nosso céu. Um céu de nomes.
ter muitos nomes gesto tão antigo ato de feitiçaria característica do que escapa ao humano ter nome nenhum derradeira liberdade antiga liberdade a inumana liberdade em mundo de documentos para validar memória reivindicamos nomes é mesmo ato de vingança são tantos nomes desajustados aos corpos das fotos tantos corpo desajustados aos nomes dos documentos todo mundo tem nomes mais verdadeiros que escapam aos papéis os nomes que lhe deram por amor os nomes que lhe deram por temor os nomes que lhe deram por fazer parte (ou não) os nomes que lhe deram aos sussurros os nomes que lhe deram aos gemidos os nomes que lhe deram aos berros os nomes que se dão no silêncio, na madrugada, quando longe dos olhares todos têm nomes mais verdadeiros que sequer são pronunciáveis nomes recebidos em sonhos nomes recebidos do sangue nomes abandonados pelo caminho nomes espelhados nas medulas algumas ancestralidades passam nomes pelos papéis algumas ancestralidades passam nomes pelo sangue e algumas ancestralidades passam nomes pelos sonhos dos nomes dos sonhos os mais verdadeiros vividos perdemos tantos soterrados por nomes invejosos de papel mas alguns recuperamos e alguns já estamos guardando nomes que nos foram passados por sonhos, sangue e feitiçaria nomes que nos apontam antes o caminho que virá são os nomes que nos dizem: sempre foi possível e nossos nomes hoje já são também transcestralidade : imagine um poema impossível, gigante infinito: cada verso um nome, a cada nome sua história quando se tornar algo impossível de seguir mapeando terá perdido a necessidade de existir e aí viveremos a liberdade de não ser problema ter (ou não) nomes








Que linda essa montagem com os 31 poemas para transicionar. ♡
Já fiquei aqui imaginando a edição especial do Profecia, quero!
Imaginar um poema impossível e sem fim de todos os nomes, que gesto bonito, traçar esse mapa, esse teto em fitas, essa constelação de nomes...
Tu é muito importante