#1 tudo o que cresce conhece no íntimo o brincar do tempo
quem sabe mais sobre crescer são as crianças
em julho de 2023, ano passado, me deparei com a placa "brincar é urgente" na casa de gênesis. gênesis é artista, poeta, performer, atriz e especuladora do futuro. é alguém que amo e cuja escrita admiro, me envolve e me dá vontade de escrever também, das melhores vontades.
e eu ali estava, no rio de janeiro, para a residência arte do amanhã, no museu do amanhã, junto com francisco rio, escutador de história e folgazão, como ele diz, ou brincante como se anda dizendo por aqui. começávamos nosso primeiro trabalho juntes, depois de alguns meses escrevendo e enviando muitos projetos. convidei francisco para criar comigo pois queria reaprender a brincar, ou aprender a brincar sendo gente grande.
acho que principalmente para voltar a ter companhia para brincadeira. enxerguei nele alguém que também gostaria de gente pra seguir brincando junto. "ninguém brinca de roda sozinho" dizia sempre o meu professor de violão, mestre gamela, mas esse é o assunto de outra coluna. (e se você não viu as anteriores, aqui contei sobre a abertura da nossa exposição “meu nome é um caminho”, a primeira materialização dessa pesquisa)
em julho, então, começávamos a pesquisa "acolher destruir o tempo", que recebeu esse nome pelo poema de mesmo título que escrevi quando encontrei francisco na chapada dos veadeiros, em fevereiro daquele ano, e fizemos um dos primeiros curtos experimentos audiovisuais juntes. as palavras "acolher", "destruir" e "tempo" sobrepostos a um trecho do seu futuro filme Estrela da Tarde.
as palavras sobre/entre uma brincadeira de dança na rua. as mãos arremessam u espectadore, que vai do asfalto ao céu. francisco conta do quadradão da casa de sua vó, no gama, sua “beira de mundo”. chuteira no asfalto, a roupa vermelha, uma bola que quica e cuja sombra replica.
vermelha é também o nome da praça do tempo na Escola Pluricultural Odé Kayode, goiás velho. onde ernesto fez uma etnografia com crianças durante sua pesquisa de mestrado. e que resultou no livro Caminhos, tramas e diálogos do tornar-se sujeito (Appris Editora, 2024), cuja capa também é vermelha.

ernesto é outra pessoa que amo muito. psicologue, artista, educador, anarquista e ateu não praticante, como ele mesmo diz. sua trajetória profissional e de vida se relaciona com as infâncias. no dia do lançamento do seu livro, organizou uma mesa de debate totalmente composta por crianças. e um foguete para colocarmos nossos recados para o lançamento do livro (ouvira alguns dias antes de outra criança: mas como você vai fazer um lançamento sem um foguete?)
ele é, afinal, o responsável por essa junção de crianças diana e francisco - ouço até as vozes de ume e de outre chamando lá de fora da rua pra brincar.
não dá pra falar de brincadeira sem falar de criança. ou melhor, com criança.
tempo, aqui, criança.


sempre que estou em momentos de dilemas e angústias da vida adulta e converso com ernesto, tal hora ele me devolve perguntas ou comentários virando o eixo das palavras que eu disse, como se elas virassem um peão, ou um sacy no redemoinho. como faria uma criança (fez isso hoje, aliás, quando eu falava com ele sobre a danada da “hora certa”). ele sabe fazer como as crianças fazem, perguntar até chegar à pergunta na raiz das outras, deve ter aprendido isso no tal do mestrado.
pergunta e raiz tem tudo a ver com tempo e com criança. também com pé. no poema tudo começa pelo pé, eu digo (- essa foi a próxima coluna #2, já leu?):
"o movimento é uma pergunta (?) ao corpo, ao outro, ao chão, ao tempo"
(nesse desenho escrita/corpo: seriam os pés um tema da coluna ou a coluna um tema dos pés? que estão relacionados é bem sabido de fisioterapeutas, dançarines e crianças)
na raiz das perguntas: a memória.
o primeiro som, a primeira gargalhada. imagina a primeira gargalhada? (existe algo primeiro no tempo da transformação? suspeito que castiel diria que não, castiel vitorino brasileiro é outra reverência que aqui fazemos ao tempo, e que retorna em outra escrita, logo mais ou logo menos)
o trecho acima é de um dos videopoemas desenvolvidos para a exposição “meu nome é um caminho”, com trilha de pétala conceitinho e montagem de marcia regina. ele recebeu o nome “ter nome nenhum” (ironia?). na galeria, ele é exposto dentro de uma pequena caixa preta, com cortinas de veludo que é preciso afastar com as mãos para assistir. e, nesse terreiro construído para chegada da criança, o vídeopoema, não por acaso, parece se estender além do tempo que o corpo permite assistir. é preciso sentar no chão ou se agachar. é preciso esquecer o entorno. é preciso entrar na brincadeira e rir um pouco junto.
mover-se lentamente talvez seja um jeito de dar o troco nas traquinagens da criança tempo, sua brincadeira de correr distâncias infindáveis, sendo rápida e lenta.


com francisco eu relembro essa coisa de brincar. aliás, o nome dessa pesquisa toda surgiu de brincarmos de oráculo com o trabalho lindo de lara perl, da editora gris, o livro “antes de tudo está o futuro” (olha como tempo é traquitana, se esgueira no meio de um tudo, tantas palavras cria para descrever seus movimentos). o livro é composto de imagens geológicas e algumas palavras dispostas ao longo das páginas. com verbos acima e substantivos abaixo. possui um corte que separa todo o miolo em duas partes, cima e baixo, possibilitando que a parte de cima e de baixo sejam lidas separadamente. e também combinadas e recombinadas. de certa forma, a gente roubou as palavras dela, ou brincamos de roubo.

no ato da brincadeira, a crianca conhece a eternidade. como diz ernesto em seu livro:
(…) o ritmo do relógio é insuficiente pra dizer a dimensão que as coisas ali têm, especialmente o brincar. A Praça Vermelha ("praça do tempo") acenava como o lugar onde mora um outro tempo, o Aion, uma outra dimensão temporal que Heráclito define como o tempo da eternidade, da brincadeira, do jogo, o tempo em que a criança brincando relativiza o próprio tempo, ou o "tempo da criança criançando" (Pulino, 2016b, p.77)" - Ernesto Nunes Brandão. caminhos tramas e diálogos do tornar-se sujeito, pg 74.
a brincadeira é uma urgência de fato, pois é coisa séria.
mas não é pressa, tampouco trabalho. a brincadeira não cabe nesse roupa de calendário.
para a brincadeira, são outras as fantasias de tempo. uma delas é a saudade. mas saudade, deixo também para depois.
(é possível?)
escrevo essa coluna como forma de me manter em contato com a pesquisa e fomentar outro espaço onde quem se interessa pelo meu trabalho possa me acompanhar, para além de redes sociais cheias de algoritmos tóxicos e estratégias viciantes.
o conteúdo da coluna é gratuito e planejo que continue assim, mas recentemente uma pessoa já manifestou interesse em apoiar meu trabalho por aqui também de forma paga (o que agradeço imenso!). Me avisem por mensagem ou nos comentários se mais gente também tem essa vontade, estou ainda estudando e aprendendo a usar a plataforma.
e se quiser deixar uma contribuição, o pix é: atelogodiana@gmail.com
boa quarta e boa semana,
diana salu
🍃





Lindeza de coluna que faz a gente querer dançar-brincar da cabeça aos pés.