#3 - tudo o que se perde conhece do tempo o que escorre
voltar , queimar , ter a arte com profissão, entender de novo o chão
essa coluna-carta de notícias tá perdida por dentro de mim desde final de novembro. era a coluna de dezembro. fiquei fugindo dela, sigo fugindo dela. talvez esteja me perdendo dela. tento me perder também da cobrança. desde maio passado, que me marcou um burnout/estafa. me perder de uma certa postura que me habituei a adotar - ou me impor - e que me adoeceu, e adoece. então aqui não há cobrança.
dezembro foi um mês de travessia longa, que condensou algumas das questões mais desafiadoras que vivi em 2024 em uma segunda mudança de estado - voltei para brasília depois de um ano morando no rio de janeiro. 2025, então, começou com uma chegada repleta de questões emocionais. e ainda lesões antigas que pioraram, uma costela quebrada, fascite plantar. entre tudo senti um tempo lento a se impor, e de certa forma, a me repor.
surpreendentemente, janeiro foi um mês muito bom para mim. eu precisava parar. precisava mudar o ritmo como eu vinha vivendo, a forma como eu me mantinha motivada e seguindo.
e fevereiro, honestamente, quem viu passar? é um desaguar do que corria em janeiro. das resoluções e pendências do ano anterior, das finalizações e coisas novas querendo se abrir, ainda lentas.
o ano, o rio, quebrar, ir, voltar januária, o rio, interior, o fogo, abrir, fechar perder - se saudade a poça
- essa anotação estava escrita há semanas.
lembretes dos tópicos que buscava alinhavar neste texto. tenho esse hábito de escrever e reescrever muitos textos mentalmente, em momentos em que não estou em uma postura ou contexto de escrita, sem jamais "passar para o papel". com frequência, me dou por satisfeita com a energia dispendida e todas resoluções mentais já tomadas. escrevo algumas pequenas notas pra depois, com a certeza que vou me lembrar de tudo, e acabo deixando passar bons momentos de ímpeto, motivação e inspiração para a escrita. os famosos "insights". brincando em tradução livre e selvagem: dentro da visão. ou, como diriam lá em minas (terra dos meus parentes) den'das vista. algo que chega e toma nosso campo visual.
por outro lado, as notas já são textos por si. e revisitá-las me permite novas perspectivas dentro das vistas. ou outras entradas para a escrita, para o texto. talvez seja sempre assim que me vejo ao escrever: a refazer continuamente a mesma escrita, encontrando diferentes pontos de entrada para ela. ou em uma conversa infinita comigo mesma em outros momentos. recontando algo a partir de outro ângulo, trazendo à tona o que em outro momento estava apenas no plano de fundo (não à toa minhas pesquisas nas artes visuais e nos quadrinhos circularam muito em torno de olhares sobre/para/pela paisagem e a sua relação com a memória). lembro-me de castiel vitorino brasileiro dizendo que escrever é lembrar durante o encontro que fizemos com ela pelo transzine-se em 2024 (dá pra ver aqui). algo similar também é trazido por camila sosa villada em sua "a viagem inútil: trans/escrita"(2024/ editora fósforo:
"A memória sustenta a escrita. Escrever é escrever recordações.”
o objetivo primeiro aqui, da "acolher destruir o tempo" é ser um espaço para que eu cultive o hábito com a escrita e onde quem acompanha meu trabalho possa estar mais perto sem depender de algoritmos de redes sociais que me parecem cada dia mais um entrave para a criatividade do que o contrário, com seu ritmo insaciável, seu excesso de estímulos e seu marketing agressivo e que vem se tornando onipresente.
em segundo lugar, procuro que esse espaço de escrita seja alimento para - e digestão da - pesquisa "acolher destruir o tempo" - uma coisa meio antropófaga de si. essa pesquisa comecei em parceria com francisco rio em 2023 e está imbrincada em quase tudo que tenho feito artisticamente. começamos de uma vontade mútua de brincar junto e, vejo hoje, também de uma vontade de se apoiar para nos recuperar de algumas marcas que a pandemia deixou na gente. diferentes em cada ume, mas que de alguma forma ressoavam. dá pra ver mais sobre esse caminho nas edições anteriores.
se fugi tanto da escrita dessa edição, além do cansaço, pode ser porque precisava falar sobre esse momento na minha vida. sobre um possível "erro" de rota. as idas e vindas, a desorientação e o embate comigo. e era preciso tempo para metabolizar um tanto do que estava fresco na pele. o ano que passou foi um dos mais difíceis que vivi desde a pandemia, talvez o mais difícil. quando decidi me mudar para o rio de janeiro, lá pelo final de 2022 era uma vontade de procurar novos horizontes, possibilidades e caminhos artísticos. quando de fato fiz isso na virada de 2023, fiz com coisas demais em aberto, várias delas em brasília. além disso, já vinha de seis meses em que viajei muito a trabalho e para promover o livro "profecia, recém-lançado. já estava cansada de tanto trânsito e vai e vem. o que acabou trazendo à tona uma série de questões internas e relacionais (em diferentes âmbitos de relações, mas especialmente na minha relação comigo mesma, meus anseios e medos) que estavam se amontoando prestes a ebulir. questões que eu não conseguia parar para dar atenção, ou sequer perceber, pois vinha em um ritmo acelerado, carregado e extenuante de trabalhos, projetos, vontades, urgências - tudo com uma enorme cobrança interna e um sentimento de que era pra ontem. de que eu precisava fazer acontecer logo.
o que, obviamente, cuminou no "burnout"/estafa/esgotamento - físico, mental, emocional. com grandes crises de ansiedade e uma dificuldade enorme de concentração e de capacidade de seguir no ritmo que estava e que envolvia manejar: trabalhar nos projetos aprovados em editais em anos anteriores; escritas de projeto para garantir os trabalhos do ano seguinte; alguns freelas de design e ilustração; feiras em que me inscrevia para vender meu trabalho; o trabalho de casa; e, mais recentemente, convites para participar de eventos. Além dos meus treinos de luta (onde estava muito dedicada, variando entre 1 a 3 treinos por dia de segunda a sábado).
a conta simplesmente não fechava.
é irônico que um dos grandes trabalhos nesse período de 2024 era justamente esta pesquisa: tempo. e eu seguindo em um ritmo que não permitia me dar o tempo de entender e viver as coisas na medida que elas precisavam ser vividas. numa ansiedade e preocupação tão grandes com o futuro e com tentar "garantir" algo e "fazer acontecer" que não percebia que sobre futuro nunca há garantia alguma e que a garantia é apenas uma sensação de segurança que procuramos ter em relação à inevitável incerteza.
fazer acontecer o quê, afinal?
tentando responder a essa pergunta, percebo que queria fazer acontecer a minha vida, através de fazer acontecer minha carreira (como se as duas já nao estivessem acontecendo). queria também fazer acontecer um aumento de renda e estabilidade econômica num momento em que os preços das coisas ainda não pararam de aumentar e o trabalho segue em ritmo de precarização neoliberal.
sou artista e autônoma há pouco mais de 10 anos, com exceção de um semestre dando aula numa faculdade particular e um período de um ano e meio trabalhando 20 horas semanais em regime clt em uma agência de comunicação. a verdade é que eu não estava mais dando conta dessa vida de viver de projeto sendo uma artista autônoma sem uma produtora; tendo que trabalhar a cada ano sem garantia nenhuma do próximo; precisando fazer jornadas extras para escrita de projeto a cada edital; com equipes descontínuas, montadas para cada projeto (o que tem toda uma dinâmica própria de manejar começos, organizar e conciliar rotinas de pessoas que também trabalham em várias outras coisas). aqui não vale romantizar precariedade: viver de arte é precário, e muito, e já era antes até da chamada "uberização" (toda essa questão trabalhista da vida de artista e autônoma dá uma conversa longa, com muita coisa a ser considerada, então fica pra outro momento)
o ponto é que em 2024 eu quebrei, em mais de um sentido. queria destruir certo tempo. um que parecia repetir um destino de limitação e incapacidade. sem acolher o tempo das coisas acontecerem. se parar para olhar o que de fato aconteceu no ano, as coisas que fiz e o que vivi, não parece ter sido um ano ruim. mas internamente, na minha cabeça e coração, tava de um tudo fora de lugar. e eu incapaz de enxergar as coisas numa perspectiva de possibilidade, de continuidade, de tranquilidade.
"(...) entretanto, o sentimento de 'perdência' estava em mim, não nos outros(...)”
- ernesto nunes brandão em “caminhos, tramas e diálogos do tornar-se sujeito” (appris editora)
me vi ao final do ano sem nenhum projeto aprovado para 2025 (aliás sem sequer ter conseguido me inscrever em qualquer um dos editais que estavam na minha mira); sem economias para segurar um período ainda inicial e instável em uma cidade nova; precisando sair do apartamento em que morava em um contexto pessoal difícil. e enxergando que o caminho para minha recuperação ainda seria longo e demandaria que eu me permitisse ir devagar. pedia uma grande reconfiguração interna que precisava retomar a perspectiva de um passo de cada vez e entender que entre um e outro passo provavelmente seriam necessárias algumas pausas. sorte a minha que eu tinha para onde voltar, com suporte e rede um pouco mais firmes.
uma semana depois de chegar em brasília, de mala e cuia e gatas e há poucos dias da virada do ano, fraturei uma costela retornando aos treinos de muay thai. então se ainda havia em mim algum ímpeto de repetir o movimento de me lançar às coisas de uma vez, com muito mais atividades do que eu dava conta, isso foi por terra.
e o chão é um bom lugar pra gente se lembrar da gravidade, da horizontalidade e de olhar para o vazio amplo do céu.
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cenas dos próximos episódios
essa newsletter levou tanto tempo de escrita que eu nem sei contar. vim e voltei nela uma infinidade de vezes e a verdade é que ela estava com o dobro deste tamanho e apenas hoje me dei conta que estava juntando duas em uma. para a próxima vamos continuar essa conversa com
perder-se o elo com o rio de janeiro não, januária são franciso paracatu o rio bom brasília e chão repousa tempo antes ou depois do fim do mundo o meio
acolher destruir o tempo 4 - pra quem sabe de onde veio.
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pós - coisa e tal um epílogo ou um conto curto
toda essa história de se perder me lembra que desde janeiro comecei a participar do grupo de escrita recorrente coordenado pela taís bravo (escritora e pesquisadora, resposável pela trajetos da escrita). em janeiro partimos da palavra chão para explorar a escrita em alguns exercícios. eu acabei escrevendo um pequeno trecho em prosa, pra minha própria surpresa, que conversou muito com o momento e que deixo para vocês nesse epílogo:
"Segurava entre os dedos, enrolada em uma espécie de esparadrapo ou gaze, duas pilhas gastas. As mãos, que pareciam dar conta do mundo, se mexiam sem parar enquanto ela explicava de novo as direções. Eu, no banco da carona, já nem acompanhava mais a corrida das palavras, apenas seguia com os olhos aquelas mãos. Nas minhas, o celular sem sinal não abria o mapa.
Luiza tentava guardar cada palavra ao volante. E ela, a das pilhas, repetia o trajeto pela terceira vez - se certificando que não fosse exatamente igual à segunda ou à primeira. Luiza ia ficando impaciente e me olhava de canto de olho e eu não via (ou fingia que não via), meus olhos apenas seguiam as pilhas pulando de dedo em dedo, mas sempre juntas, sempre enroladas na gaze - ou esparadrapo. A impressão que eu tinha era a de que se ela parasse aquele movimento, por um segundo que fosse, todo seu corpo pararia junto, até a respiração e as outras funções involuntárias.
Luiza foi encontrando uma forma de enfiar palavras suas no meio das palavras dela. Alguns agradecimentos, olhares para o retrovisor, um ajeitar de marcha e embreagem - todas as maneiras que ela encontrava de comunicar que precisava seguir viagem àquela dedicada e boa alma que não desistiria de nos ajudar (ou de continuar se entretendo com alguém com quem interagir no meio daquela vastidão de terra vermelha e vegetação rasteira). Enquanto o carro começava a se mover e seguíamos pela estrada no mínimo tão perdidas quanto antes, eu quase me arrependia da partida. Me via também na expectativa de continuar ali, ouvindo todas aquelas diferentes formas de explicar um caminho que talvez fossem mesmo uma garantia de que continuássemos perdidas, mas melhor perdidas ou perdidas do jeito certo: aquele jeito de quem inventa o caminho enquanto fala, enquanto trilha, enquanto caminha."
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essa carta sai em véspera de carnaval. e esse é o momento da suspensão e da perdencia. do momento que fim e início se juntam numa coisa só: onde o tempo brinca seu rodopio selvagem e o caos ou o vazio permitem viver as potências do que já era ainda será não foi e poderia ser que venha ainda a ser.
em casa ou na rua, que a gente aproveite esse momento e se perca bem, ainda que possamos estar um tanto preocupadas, como luíza, com a trajetória das coisas e em despistar o palavrear caótico sobre o caminho.
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Que bonito isso. Me fez pensar que o caminho só existe no olhar para trás, como saudade, e para a frente, como invenção. Apaziguemo-nos, então, com estarmos perdidas!
E lembremos sempre de entrar na cabeça do tempo com calma e pausas, lembrando da lição do Miyazaki no documentário, se não a gente não consegue fechar a tampa depois! haha